QUEM JULGA IMPORTA? UMA ANÁLISE EMPÍRICA SOBRE GÊNERO E DECISÕES NA COMISSÃO DE ANISTIA POLÍTICA BRASILEIRA
DOI:
https://doi.org/10.12818/P.0304-2340.2026v88p389Resumo
Este artigo parte dos resultados de uma pesquisa empírica qualitativa que analisou 152 decisões proferidas por conselheiros e conselheiras da Comissão de Anistia Política, entre 2013 e 2022, em processos nos quais mulheres figuraram como requerentes. A investigação constatou que não houve diferenças relevantes entre homens e mulheres quanto aos resultados dos julgamentos nem quanto ao reconhecimento das especificidades de gênero presentes nos casos analisados. Diante desse achado, o artigo busca responder ao seguinte problema de pesquisa: quais fatores explicam que a diversidade de gênero na composição da Comissão de Anistia Política não tenha produzido diferenças significativas na incorporação de uma perspectiva de gênero em seus julgamentos? Para tanto, desenvolve-se uma pesquisa de natureza qualitativa, baseada em revisão bibliográfica, articulando os estudos sobre justiça de transição, representação de gênero nos espaços institucionais e letramento de gênero. Sustenta-se que a mera presença de mulheres em órgãos decisórios, embora relevante para o fortalecimento da representação democrática, não é suficiente para promover o rompimento com racionalidades jurídicas androcêntricas. Conclui-se que a universalização abstrata do direito, a ausência de letramento de gênero e a inexistência de protocolos de julgamento com perspectiva interseccional de gênero constituem fatores que dificultam o reconhecimento das experiências específicas das mulheres, evidenciando a necessidade de mecanismos institucionais capazes de incorporar efetivamente a perspectiva de gênero também nos espaços de justiça de transição.
PALAVRAS-CHAVE: Gênero. Justiça de Transição. Comissão de Anistia Política.
